ESPERANÇAS E EXPECTATIVAS

ENSAIO Nº 01
Estamos iniciando com grandes expectativas e esperanças, neste novo período, neste novo governo, e numa nova realidade, com o mundo em profunda transformação, em especial na tecnologia. Como cidadãos, como compatriotas, como companheiros, como opositores e apoiadores, todos temos a expectativa de melhorar este grande país, abençoado por Deus, com dimensões de continente, com riquezas naturais, e com certeza da intenção de todos desejar melhorias significativas nesta gestão.
Artigos recentes com comentários positivos e negativos de expectativas quanto ao futuro próximo, como o artigo de Bolivar Lamounier no Estado de São Paulo e o artigo de Stefan Kanitz prevendo um futuro duvidoso, chamam atenção sobre os rumos a serem seguidos e avaliados. Serei otimista colocando algumas premissas que desejamos para o bem comum, sem contestar os articulistas mencionados, que admiro. A intenção é de complementar as ideias colocadas sem contradizê-las.
Sem dúvida, existe a intenção de privilegiar os menos favorecidos, o que merece todos os elogios e desejos de êxito. Para tanto, o povo está cansado de presentes e benefícios. Ele precisa de educação e trabalho digno, que é o melhor serviço social, e isso será conseguido estimulando as iniciativas que diminuam desemprego, que eliminem a fome, que combatam a desnutrição e que assim elevem a condição de vida da população, sentindo através de oportunidade para todos que realmente o governo está investindo no futuro, não somente nestes quatro anos, mas numa nova visão de melhorias a médio prazo.
O foco na educação, na erradicação definitiva do analfabetismo, na melhoria do ensino e valorização do professor, na eliminação da miséria e redução da pobreza serão conseguidas, não através de novos impostos (se bem que podem ser necessários num certo momento), mas numa gestão consciente das responsabilidades. Se o governo quiser melhorar o nível de vida da população, deve dar o exemplo gastando com parcimônia, com prudência e irradiando humildade e modéstia.
É compreensível o aumento do número de ministérios para obter plataforma de apoio para governar com suporte do congresso, mas em administração, a amplitude de comando exagerada pode tornar difícil lidar com tantos para orientar e comandar. E isto, por sua vez, gerar discursos e ações contraditórias entre os novos designados, como já têm ocorrido.
Sem falar de aumento de gastos na máquina burocrática instalada em Brasília, que já vem de longa data, se podemos falar de culpados, talvez foi o ex-presidente Juscelino Kubitschek, pela criação da cidade de Brasília, com a esplanada, e logo depois com os anexos, possibilitando o crescimento do estatismo e da burocracia.
Mas, de nada adianta olhar para o passado. Nosso foco é no futuro que desejamos, e ele passa por educação, saúde e ponderação nos gastos, evitando que se torne uma festa de desmandos do poder.
Uma grande dúvida de todos os governos que se iniciam está relacionada com manutenção ou privatização de empresas, que podem ser geridas por iniciativas privadas, ou por homens públicos. Este governo iniciou declarando intenção de manter como princípio a estatização. Se isto é uma boa medida ou não, o tempo dirá, mas o importante para o sucesso é que as empresas sejam bem geridas, por dirigentes competentes, responsáveis pelo bem público. Temos exemplo no país vizinho Argentino, onde privatizar terminou sendo fracasso e outros casos onde é recomendável. Assim, não existe regra pré-definida, e sucesso ou fracasso pode ser obtido em ambas as decisões. Quando se coloca incompetentes na direção das estatais, o risco de fracasso aumenta e, nesse caso, precisará de auxílio e de sustentação, o que significa uso inadequado de recursos públicos.
Gosto de dizer que para se avaliar uma empresa é preciso visitar o arquivo morto, para avaliar um restaurante, é preciso ver a cozinha e se não é possível, o banheiro. Para se avaliar um governo, é preciso acompanhar discurso com atuação. As atitudes e ações, dizem muito mais do que os discursos, e um governo deve prezar por simplicidade e humildade para lidar com a coisa pública, sem esquecer nunca que são os camaradas, os cidadãos que sustentam a máquina.
Nos perguntamos porque a gestão de Angela Markel na Alemanha foi tão bem avaliada. Não se trata de esquerda ou de direita, mas de uma gestão cuidadosa com o bem comum. Ela foi sempre humilde, nunca se beneficiou de sua função e somente trouxe prosperidade. Isto, independe da linha política, somente de gestão responsável e que será avaliada numa perspectiva não muito distante. Outro exemplo foi de José Mujica, que foi presidente do Uruguai e esteve recentemente presente na posse deste governo. Na sua gestão, Mujica fazia questão de seguir guiando seu fusca e andando sem segurança, numa demonstração de simplicidade e respeito com a dinheiro público.
Outra exigência de sucesso, é governar para todos os brasileiros, esquecendo as rivalidades passadas e ficando por cima das notícias falsas, numa postura elevada de estadista, com visão de futuro. Para tanto, é preciso terminar a faxina de opositores e passar a governar respeitando a pluralidade de pensamentos diversos aos próprios, e nunca esquecer que metade da população do país votou no opositor, e todos esses eleitores não são terroristas. Deve sim, condenar o desejo de golpe e a baderna no bem público, mas respeitar os eleitos pela oposição e conviver em harmonia civilizada com eles. Assim, a caça das bruxas deve ser rápida e eficaz, e concentrar a atenção nas prioridades, que são muitas, para o sucesso.
A presença de Fernando Haddad e da Marina Silva em Davos representa uma esperança da inserção do Brasil no cenário internacional com as melhores intenções, que esperamos sejam cumpridas, e que, sem dúvida, encontrarão inúmeras dificuldades no caminho das realizações. O equilíbrio Fiscal e a preservação da natureza foram apontadas como prioridades elogiáveis.
Será feito justiça quando se taxar grandes fortunas? Sempre haverá argumentos a favor e contra, mas é importante saber que toda ação provoca uma reação e que é preciso avaliar as consequências deste ato.
Entre os argumentos a favor, está buscar reduzir as desigualdades, desde que os recursos sejam usados para esta finalidade e, nos argumentos contra, está a interferência na liberdade de cada um definir o que fazer com o que obteve de riqueza. Um dos efeitos negativos pode ser a fuga de capitais e, neste caso, haveria redução de empregos e aumento da miséria. Depende muito de como seria feito. Também seria interessante, pesquisar como isto funciona em países economicamente na frente do nosso.
Assim o que é justo para uns, pode ser injusto para outros. Quando a decisão é política, é preciso medir efeitos.
O mesmo ocorre com relação ao dilema de se ter um Banco Central Independente ou não, professional é técnico ou subordinado a interesses momentâneos. Desejar juros baixos é uma intenção louvável, mas é preciso entender que não depende da vontade. O papel do Banco Central é evitar o crescimento da inflação que somente serve para empobrecer. Para decidir, seria preciso fazer o que chamamos de benchmarking, ou buscar e pesquisar exemplos em outras democracias plenas, assim como a nossa.
Muitos outros aspectos da nova política estão na pauta e precisarão de ponderação e cautela para com os efeitos e sempre com o exemplo dos governantes que terminam ditando as normas do comportamento da população. Incluso porque pagar impostos deve se tornar, não somente um dever, mas ser feito com satisfação, sabendo que o dinheiro está sendo bem aplicado.
Este momento ainda é cedo para avaliar, mas não para pensar no que os camaradas, os apoiadores e opositores desejam para melhorar a vida de todos os habitantes do país. Contamos com o bom senso dos dirigentes de plantão, para conduzir na busca de um futuro melhor, em nome dos jovens que aguardam grandes oportunidades de realizações.
Sabemos que a responsabilidade dos homens e mulheres que estão no comando não é uma tarefa fácil. Será plena de desafios e dificuldades, na busca de interesses mesquinhos, de corporativismo, de demagogia e de politicagem, mas é preciso se ter presente que o julgamento futuro da seriedade ou não das gestões, deverá será imparcial e justo. Desejamos sucesso ao atual governo, na condução do Brasil a um futuro brilhante.
Luis Gaj
Professor USP de estratégia, aposentado, e consultor de grandes empresas.