MUNDO EM CONFLITOS

Assistimos perplexos a muitos conflitos, a muita destruição, ao desespero de populações que vivem anos sofrendo bombardeios, perseguições e dificuldades para ter uma vida tranquila e civilizada.
Na maioria dos conflitos, transformados em ação agressiva, prevalece a incompetência da política, e da negociação, para dar fim à situação criada.
Tal o caso do conflito Rússia contra Ucrânia, que já dura desde 2022.
O tema dos conflitos possui vários desdobramentos, e uma complexidade imensa de questões. Possui uma dinâmica natural que permite descrever a sua evolução, e o seu desenvolvimento gradativo, e simplificaremos falando em conflitos latentes e numa escala de vários níveis, conflitos possíveis, inicio de conflito, conflito escalando para um nível superior, conflito agressivo e conflito explosivo, ou guerra.
Um exemplo de conflitos latentes, encontra-se o conflito da China com a república divergente de Taiwan, e também o conflito entre a Coreia do Norte, e a Coreia do Sul, que em ambos os casos procura-se uma relativa estabilidade, mas manobras e exercícios militares, demonstram o perigo de transformação em invasões, ou domínio militar.
Também temos como conflito latente o conflito entre os Estados Unidos e a China, em questões econômicas, como as relações comerciais, na tecnologia, e na área militar. Também como conflito latente, o conflito entre a Otan e a Rússia. Rússia querendo anexar a Ucrânia, e Otan fornecendo armas para Ucrânia se defender e até atacar a Rússia.
Nos casos de conflitos armados, e em estado de quase guerra, além da Rússia, temos o caso dos Estados Unidos contra Iran, com o desdobramento econômico, com a obstrução do estreito de Ormuz, que onera o transporte de produtos, atingindo as economias mundiais.
Muitos outros conflitos existem pelo mundo e são menos noticiados, mas não menos importantes, e também afetando profundamente a vida dos habitantes, e mencionando alguns temos: Sudão em guerra civil, que já provocou estima-se 100 mil mortos, o golpe militar de Mianmar em 2021 e o confronto com diversos grupos armados, conflito na República democrática do Congo, com grupos rebeldes, em combates localizados mais no leste, e provocando deslocamentos em grande quantidade. Temos também conflito no Iêmen, sem solução definitiva, e ainda na região do Sahek (Mali, Burkina Faso e Níger) com lutas com grupos jihadistas, e crise humanitária.
Também é preciso mencionar o importante conflito entre Israel e os diversos grupos palestinos, na Cisjordânia, e em Gaza, mas também no Líbano, com grupo financiado e armado pelo Iran
Como pode ser percebido são muitos os conflitos e a impressão e de que não terão fim, devido a interesses geopolíticos, econômicos, ou de natureza pessoal, onde ambição e desejo são fortes fatores decisórios.
Importante destacar outro país em situação de conflitos, mesmo que parciais e localizados. Trata-se da Nigéria, o país mais populoso da África, com 239 milhões de habitantes, e uma das economias mais importantes do continente, especialmente em petróleo e gás natural.
Na década de 1960, a Nigéria precisava, depois de ficar independente da colonização britânica, construir o seu futuro, mas rivalidades internas provocaram uma guerra que provocou um milhão de mortos. Possui enormes desafios, na governança, na segurança, e com elevada corrupção. E uma república com um governo central cujo presidente e Bola Tinubu, e 36 províncias, e existem conflitos, entre as províncias e o governo central. Realiza eleições, após o governo militar até 1999. Np Nordeste conflitos com a insurgência de grupo extremista ligado ao Estado Islâmico e no Noroeste e Centro, conflitos com grupos armados com sequestros e ataques às populações, possui milhões de deslocados pelo pais e um dos motivos, é a existência de 250 grupos étnicos, e 500 línguas, praticadas pelo pais, mesmo com o inglês como língua oficial. Apesar das perdas humanas, dos deslocamentos, e da miséria nessa época, o mundo ficou indiferente e pouco foi noticiado sobre a Nigéria.
Em 1966 Biafra declarou a sua independência e isto provocou forte reação do governo central, que isolou a região, suspendeu o envio de alimentos e medicamentos e provocou a morte de entre 1 a 3 milhões de habitantes, não tanto pela guerra interna, e principalmente pela fome, pela desnutrição, e pelas doenças provocadas pelo isolamento, até que em 1970 Biafra capitulou. Cabe destacar que o mundo silenciou a este massacre, e somente mais tarde, foram divulgadas algumas notícias sobre os acontecimentos.
Vamos nos deter um pouco na análise do conflito no Sudão, pais do nordeste da África, com guerra civil, que já dura mais de três anos, desde abril de 2023 entre as forças armadas do Sudão SAF
Lideradas por um general, e um forte grupo paramilitar e seu líder. Ambos os principais personagens estavam unidos em 2019, por ocasião da queda do ditador Oman Al Bashir, mas logo depois se desentenderam pelo poder territorial, e pelo poder nas minas de ouro, e nas riquezas. Existem ainda rivalidades étnicas, em Darfur, e países de fora, que por interesses específicos, apoiam uma ou outa parte, colocando lenha no conflito, de guerra civil, que tem provocado imenso deslocamento de pessoas, fugindo dos ataques e também devido a fragilidade do poder, do estado constituído.
Em três anos de guerra, o exército recuperou parte da capital do país Cartum, enquanto o grupo paramilitar, e forte no Oeste e em Darfur. Não existem oportunidades e negociações em andamento para uma solução política e negociada, e a crise humanitária se acentua, especialmente provocando miséria e fome, perseguições, muitos milhares de deslocados, e refugiados e destruição de infraestrutura, como hospitais e escolas. Os Emirados Árabes, Egito, Rússia, e outros países, estão envolvidos nesta guerra civil, com muito pouca informação, apesar da crise humanitária, enquanto na guerra da Ucrânia o pais tem uma forte estrutura, recebe muito apoio de países europeus, e ainda temos a República Democrática do Congo, que vive uma crise que já dura décadas de violência contra civis
Mas não somente casos localizados em regiões, entre países, e geopolíticos existem. No mundo micro das famílias, no mundo dos condomínios residenciais, no mundo dos negócios entre empresas e no mundo da política, em todas as esferas, existem conflitos, como vemos também entre órgãos públicos, entre executivo e legislativo, entre justiça e governo, entre jornais e entre comunicadores de toda espécie.
Dois casos de conflitos pessoais.
Tínhamos a Eva e eu, certa vez, um casal de amigos, judeus alemães, imigrados durante a perseguição da segunda guerra, no regime nazista. Era de origem de uma família que tinha se integrado na comunidade alemã, durante várias gerações, mas que mantinha as tradições judaicas na diáspora, primeiro na Bolívia, que foi o único pais que recebia imigrantes fugitivos da guerra, e depois no Brasil. Tiveram um casal de filhos que foram crescendo, estudando, se profissionalizando, e namorando. Acontece que miscigenados com o povo brasileiro, o filho começou a namorar com uma moça católica, que, no entanto, tentou se converter ao judaísmo. Mesmo nesta circunstância, e sendo o pai muito radical, não aceitou que o filho aprofundasse sua relação om esta moca, e mais tarde se negou a aceitar ela como noiva no casamento por amor, do seu filho. Casamento consumado, tiveram filhos nos anos que se seguiram e as relações com os sogros ficaram tensas. A mãe das crianças e esposa rejeitada pelos sogros, e com um casamento feliz, e uma família constituída, proibiu que seus filhos tivessem contato com esses avôs, e orientou seus filhos a um relacionamento amoroso com seus pais.
Os pais do noivo e sogros da noiva, tendo tido netos, sentiram profundamente a limitação criada pela intolerância do pai nos anos do noivado, e tentaram aproximação sem sucesso. este um caso de conflito não resolvido por intolerância. Na fase inicial do conflito, deveria ter havido um respeito aos desejos e escolha do filho, e nunca uma postura agressiva de não aceitação, contra a vontade do filho adulto.
Mesmo na situação criada, poderia ser encontrada uma solução, mas teria que haver uma atitude humilde e até de pedido de desculpas, para permitir uma reconciliação da família.
Um segundo caso de conflito surgiu num condomínio em Campos do Jordão, onde um dos moradores exigia execução de quatro quadras, duas poli esportivas e duas de tênis, mesmo com poucos moradores no início. O incorporador tinha construído já duas quadras e aguardava a oportunidade de ter mais moradores, o que levaria mais um a dois anos, para construir as outras duas. O argumento do incorporador, era que as quadras teriam no futuro muita manutenção e consequentemente despesas para os moradores e que isto teria por isso, que ser gradativo. O atrito estava instalado e as discussões acaloradas não paravam, e as assembleias, que deveriam se pacíficas, se transformaram em belicosas.
Orientado por psicólogo, o incorporador resolveu convidar a beligerante para um café da manhã, que foi realizado numa padaria, em lugar neutro, conveniente para as partes. Neste encontro, que durou duas horas, e tomando um bom café, houve a pergunta inicial de apontar claramente a queixa e apresentar claramente, a defesa das posições. Nesta conversa pessoal e amigável foi percebido que ambos tinham as melhores intenções e se chegou a um acordo, e a partir desse dia o conflito foi superado.
Para superar conflitos, numa das fazes iniciais, é preciso a intervenção de uma terceira parte, não identificada com nenhum dos envolvidos, ou uma das partes humildemente, procurar aproximação, o que foi feito com sucesso.
Casos como estes, restritos a famílias ou pessoas são relativamente fáceis de resolver, mas nem sempre possíveis, e são muito frequentes, originados por um desentendimento, por uma afirmação duvidosa, ou por uma atitude considerada ofensiva.
Observa-se a complexidade, e a amplitude, que tem o tema dos conflitos, e lamentavelmente, estamos vivenciando a intolerância, os personalismos, a decadência da política, das negociações, e da diplomacia na mediação dos conflitos, e na procura por soluções que não afetem a vida de milhões de pessoas neste nosso mundo pequeno e confuso.
Como os conflitos não são produto de fatores ambientais e externos, eles dependem do ser humano, e todos podem ser administrados e resolvidos. Isto depende do ser humano e recomendo o livro Sim, E Possível de William Ury, um interventor que age com criatividade na procura de soluções para conflitos internacionais.
Luis Gaj
Agosto 2026